segunda-feira, 30 de março de 2026

Texto do desafio da sessão de 03/03/2026 d'A Velha Escrita, com o tema "Sobretudo Nada"

 

Esfregou o rosto. Olhou para o relógio. Estavam naquilo ia para três horas. As pernas metálicas da cadeira gemeram quando as arrastou para se afastar da mesa. Ergueu-se ao som do estalar do joelho esquerdo. Desportos radicais, na juventude, eram viciantes, mas agora, ao entrar na fase em que os anos parecem estar em contagem decrescente, começava a receber as faturas para pagar tudo o que gastara nesses tempos. Rodou, ficando de costas para o suspeito. Pela janela gradeada entrava uma luz pastosa de um fim de dia de céu encoberto. Deu dois passos e colocou-se de fronte para uma réstia de sol que se esgueirava por uma racha nas nuvens.

Deteve-se, pensativo. Nada daquilo fazia sentido. Revia a conversa na mente, uma e outra vez. Teria de começar de novo. Olhou para trás, por cima do ombro. A careca do homem sentado reluzia. Aparentava uma apatia constante, apenas reagindo quando falava. Parecia um daqueles bonecos parvos que repetem tudo o que ouvem, enquanto se movem de forma desengonçada, regressando a uma rigidez de morte de seguida.

Regressou ao seu lugar, pegou na cadeira pelo encosto e sentou-se de novo de frente para a mesa. A sala ficava numa meia cave. Tinha duas janelas de um lado, no topo junto ao teto, e acedia-se por uma escada pouco recomendável. O edifício já vira melhores dias, e testemunhas disso eram as manchas negras que se espalhavam pelos cantos do teto.

Pegou na garrafa de água que estava à sua frente e deu um gole. Fez sinal ao suspeito a questionar se ele queria água, mas ele limitou-se a continuar a fitar o infinito. Estava encolhido, braços entre as pernas e queixo pouco acima do tampo da mesa.

— Recapitulemos — disse, na esperança de que, pela centésima enésima vez, tudo aquilo começasse a fazer sentido. — Há duas noites atrás-

— Há duas noites — cortou o suspeito.

— Sim, isso foi o que eu disse.

— Não, o senhor detetive disse “há duas noites atrás”. É “há duas noites”, não se diz “atrás”.

Fitou o suspeito. Ele olhava-o com aquela expressão de pateta que lhe começava a dar conta dos nervos.

— Seja. Onde é que eu ia?… ah! Já sei. Há duas noites — fez uma pausa — o senhor Miralberto estava nas imediações da piscina municipal.

— Correto. Estava a fazer a minha caminhada matinal.

 — Às três da manhã? — questionou o detetive, em tom de incredulidade.

— Levanto-me cedo, confesso — respondeu o suspeito.

— Explique-me, que já não tenho paciência para todos os entretantos, o que se passou com as calças da vítima que estavam no fundo da piscina.

— Afogaram-se, claro. Eram calças.

— Assim como a vítima, não é verdade?

— Sim, claro, ela estava de calças e não tinha o sobretudo. Quando as tirou já era tarde demais. Tudo se propiciou para o acidente.

— O facto de o terem visto a empurrar a vítima para a água, não terá nada a ver com este “acidente”, como o senhor lhe chama?

— Isso não seria problema, se ele não tivesse tirado o sobretudo.

— Como assim?

— Como assim, como assim? Nunca teria acontecido porque, e toda a gente sabe isto, o sobretudo nada.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Texto do desafio da sessão de 03/02/2026 d'A Velha Escrita, com o tema "As Duas Faces da Dualidade"

 

A reunião arrastava-se. Cestinolácia olhava para o mostrador. Quase que conseguia ouvir um tiquetaque no relógio digital, tal era a lentidão em que os segundos passavam. Aguardava a sua vez de falar, de apresentar os seus argumentos e, como era óbvio, as suas reclamações. Chegara àquela empresa há perto de onze anos e, desde o primeiro dia, que se vira atolada em trabalho. Recentemente, a contratação de Esmeralda prometia-lhe alívio nas tarefas diárias, mas isso nunca mais se concretizava. Estava a aprender, era nova, precisava de se ambientar. E estávamos nisto há mais de dois anos.

Inácio, o chefe do departamento, distribuía as tarefas para o novo trimestre. Cestinolácia aguardou pacientemente. Como esperado, a balança desequilibrava. Para ela o chumbo, para a outra o algodão. Trabalho e mais trabalho, e a outra com a vida aliviada.

Uma hora de reunião para apresentar o plano para o novo trimestre, quase duas para justificar a distribuição do trabalho. Os argumentos do chefe repetiam-se de trimestres anteriores. Eram absurdos, desprovidos de essência, ou até mesmo de lógica.

— E a menina Esmeralda — dizia ele —, não a podemos sobrecarregar de trabalho, não é verdade? Somos ou não somos cavalheiros?

Cestinolácia enrubesceu das faces quando a fúria lhe levou o fogo ao rosto.

— Desculpe, mas eu não sou um cavalheiro e levo com a carga toda na mesma?

— Mas, dona Cestinolácia, a senhora já está cá há tantos anos, é como se fosse um dos rapazes.

— Não estou a entender a sua dualidade de critérios. — Se os olhos dela cuspissem fogo, Inácio seria agora apenas um torresmo.

— A dualidade, minha cara, é como uma moeda, está a ver.

— Garanto-lhe que não estou. Ora explique-me lá.

Inácio endireitou as costas sentando-se muito direito. Um sorriso assomou-lhe ao rosto. Ficava sempre assim quando achava que ia dizer algo muito erudito, filosófico até.

— A dualidade tem duas faces, compreende? Sei que é complicado seguir os meus raciocínios, mas vamos tentar. Como lhe dizia, a dualidade é como uma moeda, tem duas faces.

— O que é que isso quer dizer, em concreto? — Cestinolácia cruzou as pernas e recostou-se na cadeira. No rosto estava estampado o desprezo que sentia pelo chefe.

— Ora bem. Vejo que estamos a ter alguma dificuldade de comunicação. Peço desculpa pelo meu discurso profundamente filosófico. Eu compreendo que só está à altura de alguns, logo, não de todos. Como dizia, a dualidade tem duas faces, como uma moeda. É preciso compreender cada uma das faces para se ter a perspetiva do todo. Cada face, por si só, é incompleta, inconclusiva e, como tal, incompreensível. É normal que se fique com uma ideia errada do todo apenas observando parte. É por esta verdade que eu lhe digo que tem de ver o todo, não só a parte. Assim, a minha dualidade de critérios só se compreende quando se observa ambas as faces, quando se tem plena noção de todos os fatores que influenciam esses critérios e qual o motivo de estarem numa estrutura de dualidade, quem é como quem diz, divididos em duas faces.

— Diga-me lá, senhor Inácio, essa dualidade de critérios, essas duas faces, como diz, a ver se estou a entender isto bem, ou seja, numa das faces estão todos esses argumentos que enumerou e na outra o facto da menina Esmeralda ser filha do senhor Ponteira, o seu amigo de infância. Estou certa?

Olharam-se em silêncio, por um momento.

— Olhando ao grande plano, ao grande esquema das coisas, aquele que inclui as duas faces e as conjuga, para tornar a dualidade compreensível, não podemos descurar qualquer argumento, por mais ínfima que seja a sua importância, como esse que refere. Sim, isso é verdade.

— Estamos esclarecidos — respondeu Cestinolácia, levantando-se. — Agora, se me permitem, retiro-me. Vou ao centro de saúde falar com a minha médica. Creio que apanhei uma dualite e preciso de baixa. Com licença.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Texto do desafio da sessão de 06/01/2026 d'A Velha Escrita, com o tema "Em Sentido, Sem Sentido"

 

Irme! — Gritou o Furriel. O pelotão alinhava e colocava-se em sentido. Ninguém movia um músculo. Nem o frio cortante, que anunciava neve, ou o vento que o fazia raspar no rosto dos soldados, como microlâminas de aço cirúrgico a cortar a superfície da pele, os retirava do transe provocado pela autoridade do graduado. 

O silêncio tombava pesado, apenas rasgado pelo assobiar do vento e o chapinhar das botas do furriel na lama. Em passo lento, compassado, passava em frente ao pelotão, ou o que restava dele. A trincheira apertada obrigava os homens a manterem-se hirtos, arma junto ao corpo, olhos na parede de terra à sua frente. Para dela, o inimigo. Para trás, os senhores da guerra. Oficiais de alta patente que esperavam resultados. Qual o lado pior, ninguém sabia. 

A alvorada aproximava-se. O dia nascia e, para muitos, seria o último. Todos os dias, desde que ali haviam chegado, tinham o potencial de ser o último. Com sorte, seria apenas mais um. 

Que sentido fazia estarem ali? Que sentido fazia tudo aquilo? Nas mentes dos soldados não havia espaço para aquelas perguntas. Sentido era uma posição militar, não a essência da existência. Isso ficara em casa, com aqueles que os viram partir. Aqueles que aguardavam o seu regresso, ou um regresso. Alguma coisa. Tudo era melhor do que o nada. 

Mantiveram-se em sentido. A tensão acumulava. Fardas velhas e sujas, dos que ainda se aguentavam, misturavam-se com as fardas novas dos que haviam chegado para substituir os que já não se levantavam. Armas prontas. Dentes cerrados. Respiração entrecortada. A hora aproximava-se. 

O furriel ergueu a mão. Os homens prepararam-se. O assobio surgiu. A multidão avançou. Galgam o muro de terra e correm pela lama e pelos buracos. A chuva é vertical e a água está transformada em chumbo. A terra explode e despedaça corpos. O ar inunda-se de gritos. A fúria de quem avança, a dor que quem ainda vive, o desespero de quem não quer continuar. 

Terra e sangue formam a lama em que as botas derrapam. O cheiro a pólvora e morte satura o ar. 

Um a um, os homens vão tombando. Corpos presos no arame farpado, dentro de crateras, espalhados em pedaços pelo chão. O ceifeiro não tem mãos a medir para o serviço. 

O assalto termina. O fumo assenta. Ninguém resta. 

 

Regressam à trincheira. Mais um ataque repelido. Quantos mais seriam capazes de aguentar? Recolhem mortos e feridos. Tudo se mantém igual. Apenas aumenta o número de corpos espalhados pela “terra de ninguém”. 

Os soldados colocam-se em sentido. Que sentido fazia aquilo? A pergunta esfumava-se com o tempo. 

O único que fazia sentido ali era sobreviver. 

Texto do desafio da sessão de 03/03/2026 d'A Velha Escrita, com o tema "Sobretudo Nada"

  Esfregou o rosto. Olhou para o relógio. Estavam naquilo ia para três horas. As pernas metálicas da cadeira gemeram quando as arrastou pa...