A reunião arrastava-se. Cestinolácia olhava para o mostrador. Quase que conseguia ouvir um tiquetaque no relógio digital, tal era a lentidão em que os segundos passavam. Aguardava a sua vez de falar, de apresentar os seus argumentos e, como era óbvio, as suas reclamações. Chegara àquela empresa há perto de onze anos e, desde o primeiro dia, que se vira atolada em trabalho. Recentemente, a contratação de Esmeralda prometia-lhe alívio nas tarefas diárias, mas isso nunca mais se concretizava. Estava a aprender, era nova, precisava de se ambientar. E estávamos nisto há mais de dois anos.
Inácio, o chefe do departamento, distribuía as tarefas para o novo trimestre. Cestinolácia aguardou pacientemente. Como esperado, a balança desequilibrava. Para ela o chumbo, para a outra o algodão. Trabalho e mais trabalho, e a outra com a vida aliviada.
Uma hora de reunião para apresentar o plano para o novo trimestre, quase duas para justificar a distribuição do trabalho. Os argumentos do chefe repetiam-se de trimestres anteriores. Eram absurdos, desprovidos de essência, ou até mesmo de lógica.
— E a menina Esmeralda — dizia ele —, não a podemos sobrecarregar de trabalho, não é verdade? Somos ou não somos cavalheiros?
Cestinolácia enrubesceu das faces quando a fúria lhe levou o fogo ao rosto.
— Desculpe, mas eu não sou um cavalheiro e levo com a carga toda na mesma?
— Mas, dona Cestinolácia, a senhora já está cá há tantos anos, é como se fosse um dos rapazes.
— Não estou a entender a sua dualidade de critérios. — Se os olhos dela cuspissem fogo, Inácio seria agora apenas um torresmo.
— A dualidade, minha cara, é como uma moeda, está a ver.
— Garanto-lhe que não estou. Ora explique-me lá.
Inácio endireitou as costas sentando-se muito direito. Um sorriso assomou-lhe ao rosto. Ficava sempre assim quando achava que ia dizer algo muito erudito, filosófico até.
— A dualidade tem duas faces, compreende? Sei que é complicado seguir os meus raciocínios, mas vamos tentar. Como lhe dizia, a dualidade é como uma moeda, tem duas faces.
— O que é que isso quer dizer, em concreto? — Cestinolácia cruzou as pernas e recostou-se na cadeira. No rosto estava estampado o desprezo que sentia pelo chefe.
— Ora bem. Vejo que estamos a ter alguma dificuldade de comunicação. Peço desculpa pelo meu discurso profundamente filosófico. Eu compreendo que só está à altura de alguns, logo, não de todos. Como dizia, a dualidade tem duas faces, como uma moeda. É preciso compreender cada uma das faces para se ter a perspetiva do todo. Cada face, por si só, é incompleta, inconclusiva e, como tal, incompreensível. É normal que se fique com uma ideia errada do todo apenas observando parte. É por esta verdade que eu lhe digo que tem de ver o todo, não só a parte. Assim, a minha dualidade de critérios só se compreende quando se observa ambas as faces, quando se tem plena noção de todos os fatores que influenciam esses critérios e qual o motivo de estarem numa estrutura de dualidade, quem é como quem diz, divididos em duas faces.
— Diga-me lá, senhor Inácio, essa dualidade de critérios, essas duas faces, como diz, a ver se estou a entender isto bem, ou seja, numa das faces estão todos esses argumentos que enumerou e na outra o facto da menina Esmeralda ser filha do senhor Ponteira, o seu amigo de infância. Estou certa?
Olharam-se em silêncio, por um momento.
— Olhando ao grande plano, ao grande esquema das coisas, aquele que inclui as duas faces e as conjuga, para tornar a dualidade compreensível, não podemos descurar qualquer argumento, por mais ínfima que seja a sua importância, como esse que refere. Sim, isso é verdade.
— Estamos esclarecidos — respondeu Cestinolácia, levantando-se. — Agora, se me permitem, retiro-me. Vou ao centro de saúde falar com a minha médica. Creio que apanhei uma dualite e preciso de baixa. Com licença.
