quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Texto do desafio da sessão de 03/02/2026 d'A Velha Escrita, com o tema "As Duas Faces da Dualidade"

 

A reunião arrastava-se. Cestinolácia olhava para o mostrador. Quase que conseguia ouvir um tiquetaque no relógio digital, tal era a lentidão em que os segundos passavam. Aguardava a sua vez de falar, de apresentar os seus argumentos e, como era óbvio, as suas reclamações. Chegara àquela empresa há perto de onze anos e, desde o primeiro dia, que se vira atolada em trabalho. Recentemente, a contratação de Esmeralda prometia-lhe alívio nas tarefas diárias, mas isso nunca mais se concretizava. Estava a aprender, era nova, precisava de se ambientar. E estávamos nisto há mais de dois anos.

Inácio, o chefe do departamento, distribuía as tarefas para o novo trimestre. Cestinolácia aguardou pacientemente. Como esperado, a balança desequilibrava. Para ela o chumbo, para a outra o algodão. Trabalho e mais trabalho, e a outra com a vida aliviada.

Uma hora de reunião para apresentar o plano para o novo trimestre, quase duas para justificar a distribuição do trabalho. Os argumentos do chefe repetiam-se de trimestres anteriores. Eram absurdos, desprovidos de essência, ou até mesmo de lógica.

— E a menina Esmeralda — dizia ele —, não a podemos sobrecarregar de trabalho, não é verdade? Somos ou não somos cavalheiros?

Cestinolácia enrubesceu das faces quando a fúria lhe levou o fogo ao rosto.

— Desculpe, mas eu não sou um cavalheiro e levo com a carga toda na mesma?

— Mas, dona Cestinolácia, a senhora já está cá há tantos anos, é como se fosse um dos rapazes.

— Não estou a entender a sua dualidade de critérios. — Se os olhos dela cuspissem fogo, Inácio seria agora apenas um torresmo.

— A dualidade, minha cara, é como uma moeda, está a ver.

— Garanto-lhe que não estou. Ora explique-me lá.

Inácio endireitou as costas sentando-se muito direito. Um sorriso assomou-lhe ao rosto. Ficava sempre assim quando achava que ia dizer algo muito erudito, filosófico até.

— A dualidade tem duas faces, compreende? Sei que é complicado seguir os meus raciocínios, mas vamos tentar. Como lhe dizia, a dualidade é como uma moeda, tem duas faces.

— O que é que isso quer dizer, em concreto? — Cestinolácia cruzou as pernas e recostou-se na cadeira. No rosto estava estampado o desprezo que sentia pelo chefe.

— Ora bem. Vejo que estamos a ter alguma dificuldade de comunicação. Peço desculpa pelo meu discurso profundamente filosófico. Eu compreendo que só está à altura de alguns, logo, não de todos. Como dizia, a dualidade tem duas faces, como uma moeda. É preciso compreender cada uma das faces para se ter a perspetiva do todo. Cada face, por si só, é incompleta, inconclusiva e, como tal, incompreensível. É normal que se fique com uma ideia errada do todo apenas observando parte. É por esta verdade que eu lhe digo que tem de ver o todo, não só a parte. Assim, a minha dualidade de critérios só se compreende quando se observa ambas as faces, quando se tem plena noção de todos os fatores que influenciam esses critérios e qual o motivo de estarem numa estrutura de dualidade, quem é como quem diz, divididos em duas faces.

— Diga-me lá, senhor Inácio, essa dualidade de critérios, essas duas faces, como diz, a ver se estou a entender isto bem, ou seja, numa das faces estão todos esses argumentos que enumerou e na outra o facto da menina Esmeralda ser filha do senhor Ponteira, o seu amigo de infância. Estou certa?

Olharam-se em silêncio, por um momento.

— Olhando ao grande plano, ao grande esquema das coisas, aquele que inclui as duas faces e as conjuga, para tornar a dualidade compreensível, não podemos descurar qualquer argumento, por mais ínfima que seja a sua importância, como esse que refere. Sim, isso é verdade.

— Estamos esclarecidos — respondeu Cestinolácia, levantando-se. — Agora, se me permitem, retiro-me. Vou ao centro de saúde falar com a minha médica. Creio que apanhei uma dualite e preciso de baixa. Com licença.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Texto do desafio da sessão de 06/01/2026 d'A Velha Escrita, com o tema "Em Sentido, Sem Sentido"

 

Irme! — Gritou o Furriel. O pelotão alinhava e colocava-se em sentido. Ninguém movia um músculo. Nem o frio cortante, que anunciava neve, ou o vento que o fazia raspar no rosto dos soldados, como microlâminas de aço cirúrgico a cortar a superfície da pele, os retirava do transe provocado pela autoridade do graduado. 

O silêncio tombava pesado, apenas rasgado pelo assobiar do vento e o chapinhar das botas do furriel na lama. Em passo lento, compassado, passava em frente ao pelotão, ou o que restava dele. A trincheira apertada obrigava os homens a manterem-se hirtos, arma junto ao corpo, olhos na parede de terra à sua frente. Para dela, o inimigo. Para trás, os senhores da guerra. Oficiais de alta patente que esperavam resultados. Qual o lado pior, ninguém sabia. 

A alvorada aproximava-se. O dia nascia e, para muitos, seria o último. Todos os dias, desde que ali haviam chegado, tinham o potencial de ser o último. Com sorte, seria apenas mais um. 

Que sentido fazia estarem ali? Que sentido fazia tudo aquilo? Nas mentes dos soldados não havia espaço para aquelas perguntas. Sentido era uma posição militar, não a essência da existência. Isso ficara em casa, com aqueles que os viram partir. Aqueles que aguardavam o seu regresso, ou um regresso. Alguma coisa. Tudo era melhor do que o nada. 

Mantiveram-se em sentido. A tensão acumulava. Fardas velhas e sujas, dos que ainda se aguentavam, misturavam-se com as fardas novas dos que haviam chegado para substituir os que já não se levantavam. Armas prontas. Dentes cerrados. Respiração entrecortada. A hora aproximava-se. 

O furriel ergueu a mão. Os homens prepararam-se. O assobio surgiu. A multidão avançou. Galgam o muro de terra e correm pela lama e pelos buracos. A chuva é vertical e a água está transformada em chumbo. A terra explode e despedaça corpos. O ar inunda-se de gritos. A fúria de quem avança, a dor que quem ainda vive, o desespero de quem não quer continuar. 

Terra e sangue formam a lama em que as botas derrapam. O cheiro a pólvora e morte satura o ar. 

Um a um, os homens vão tombando. Corpos presos no arame farpado, dentro de crateras, espalhados em pedaços pelo chão. O ceifeiro não tem mãos a medir para o serviço. 

O assalto termina. O fumo assenta. Ninguém resta. 

 

Regressam à trincheira. Mais um ataque repelido. Quantos mais seriam capazes de aguentar? Recolhem mortos e feridos. Tudo se mantém igual. Apenas aumenta o número de corpos espalhados pela “terra de ninguém”. 

Os soldados colocam-se em sentido. Que sentido fazia aquilo? A pergunta esfumava-se com o tempo. 

O único que fazia sentido ali era sobreviver. 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Livro "Não Acendas a Luz - Volume I" já disponível

Livro:

Não Acendas a Luz

Volume I

já disponível

capa mole / capa dura / kindle

Este livro não pretende ser uma antologia. É apenas uma reunião de contos de terror que escrevi até 2024, incluindo:


* 4 publicados na Fábrica do Terror [www.fabrica-do-terror.com];
* 31 do desafio SPOOKTOBER, lançado, online, pela Rita Santos durante o mês de Outubro [@spooktoberwriters];
* 2 escritos para o SPOOKTOBER, mas que não foram usados;
* 3 textos escritos na tertúlia A Velha Escrita [https://velhaescrita.wordpress.com/category/autores/jp-felix-da-costa/]
* 3 primeiras histórias de terror que escrevi;
* 3 que nunca foram publicados.

 

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Texto do desafio da sessão de 04/11/2025 d'A Velha Escrita, com o tema "Depois de Mim"

 

— Depois de mim? Depois de mim virá alguém. Não me perguntem quem. 

Sentou-se e olhou para a plateia. Quem lançara a pergunta que silenciara a sala encontrava-se de pé. Ele dera a resposta que solidificara esse silencio. Todos os olhos se agarravam ao fato cinzento, à camisa azul e à gravata cinza-azulada do homem que olhava em volta com a boca ligeiramente aberta. Parou o olhar em cima do palco. Na cadeira. Naqueles olhos que lhe questionavam o que tencionava fazer. Falar, sentar ou sair, a escolha era dele. Decidiu sentar-se. 

Enquanto eu aqui estiver, não vale a pena questionar quem virá depois de mim.Levantou-se. Caminhou cabisbaixo ao longo do palco. Mãos atrás das costas. Deu meia-volta e regressou para o pé da cadeira. Apenas se ouvia o zumbido das moscas, um esporádico estalo de quem tentava matar alguma, e o raspar da sola dos sapatos de pele dele contra a madeira do palanque. 

— Bom. — Rodou sobre os pés, ficando de frente para os presentes. Os rostos revelavam incertezas, receio do que estava para vir. A decisão a tomar impunha-se, mas os olhares espelhavam dúvida. — Apresentados que estão os argumentos, uma decisão terá de ser tomada. 

Agarrou uma mão com a outra, por trás das costas. Erguia e baixava os calcanhares, de forma ritmada, enquanto aguardava alguma reação. 

— Ninguém tem nenhuma proposta? Nenhuma resolução? Nada? 

Ouviram-se sinos. Ao fim de uma dúzia de badaladas, a porta do salão abriu-se com estrondo. Por ela entrou um homem. As calças de ganga e a camisola de gola alta denunciavam a juventude. No rosto, a barba rasa, negra, e o cabelo farto a combinar, contrastavam com a brancura e raridade do cabelo do homem que estava diretamente à sua frente, ao fundo do corredor. 

— Eu sou a resposta, e a resposta a essa pergunta sou eu. 

— E você quem é? — questionou o homem mais velho. O tom de voz mostrava o aborrecimento que sentia por aquela interrupção. 

— Eu sou quem vem depois. 

Depois de mim? 

— Sim. Depois de ti. 

O velho desceu os dois degraus e avançou em direção ao novo. 

— Já está na hora? 

— Está — respondeu o novo. — Não ouviste os sinos? 

— Já não ouço assim tão bem, sabes. 

Aproximou-se do novo. Parou por um momento a olhar para ele. Recordava-se de quando entrara assim, de rompante, com toda aquele energia e força. Virou os olhos para o chão e seguiu caminho, saindo da sala. 

O novo fechou as portas, inspirou fundo, e dirigiu-se ao palanque. 

— Bom — disse, virando-se para a plateia. — Então, quais são as resoluções que têm para mim? 

Texto do desafio da sessão de 07/10/2025 d'A Velha Escrita, com o tema "Cair da Folha"

 

Anastácio aguardava ansiosamente. O banco de madeira em que o haviam sentado de confortável não tinha nada. Esperava num corredor comprido de um edifício antigo. O pé direito do espaço daria para construir um edifício de dois andares moderno. Ouvia o ranger de portas. Velhas dobradiças secas que se lamentavam dos anos de vida e de trabalho monótono. Os candeeiros vomitavam uma luz amarela que se refletia nas partículas de pó que pairavam a toda a volta. Pessoas atarefadas passavam por ele, carregadas de livros, papeis e dossiês. Ele levantava a mão, timidamente, mas, mesmo assim, continuava invisível para aquelas pessoas extremamente atarefadas que lhe pareciam querer adiantar a conversa por vários dias, para depois poderem trabalhar sem interrupções. A cadeira abanava com todo este trânsito. O soalho juntava-se ao coro de lamentos das dobradiças e oscilava a cada passo. 

Olhou para a esquerda. No fundo do corredor avançava, em passo rápido, uma rapariga. Não devia ter mais de 20 anos. Pela forma como se comportava, ainda deveria ser estagiária. Nas mãos carregava uma quantidade desmesurada de papeis. Tantos que ele só lhe via a cintura, as mãos e o topo da cabeça. A meio do corredor, com a deslocação de ar da passada, uma folha deslizou do meio do monte e esgueirou-se por baixo da porta do armário dos produtos de limpeza. Anastácio recordou-se logo da senhora mal-encarada que lhe ralhara para levantar os pés do chão. 

Se está no chão, vai para o lixo, está a ver? Dissera ela. Não quer que lhe deite os pés fora, pois não? 

Ele elevara os pés, segurando as pernas por baixo dos joelhos, e aguardara que ela passasse a esfregona. Mesmo depois de ela desaparecer, ainda aguentou naquela posição mais um bocado. Quando finalmente se convenceu de que ela não iria voltar, relaxou. 

A estagiária virou em direção à porta à esquerda dele, e entrou. Ele pode-lhe ver o rosto vermelho e os cabelos negros, lisos, colados ao rosto pelo suor que lhe escorria pela cabeça. 

Pouco depois foi chamado a entrar. Cumprimento para aqui, cumprimento para ali. 

— Vamos ao que interessa, que não tenho muito tempo disponível disse a doutora, batendo com as palmas das mãos no topo da pilha de papeis que tinha à frente. Então, o que o traz por cá? — Continuou ela. Anastácio elevou-se ligeiramente e abriu a boca. Ela levantou a mão com a palma virada para ele, petrificando-o. Manteve-se assim uns segundos e depois deixou-se cair. 

O senhor está em “maus lençóis”, me parece dizia ela. Anastácio só abanava a cabeça e apertava a boina que mantinha agarrada com as duas mãos. 

Papel para um lado, papel para o outro. A princípio a sua interlocutora estava descontraída, mas, com o passar do tempo, e o folhear de papeis, começou a ficar enervada. Os movimentos suaves deram lugar a movimentos bruscos. Continuou nessa dança até dar um murro na mesa. 

Ao que parece, afinal o seu caso não existe. Deve ter havido aqui algum engano. Ele olhou para ela, sem compreender muito bem o que ela lhe estava a dizer. Homem — retorquiu ela, em tom áspero, vá-se embora, que aqui não há nada contra si, afinal. 

Anastácio levantou-se, fez uma vénia, e começou a recuar. 

Vá, vá disse ela, enxotando-o com a mão. — Vá-se lá embora, que, ou me engano muito, ou acabou por se safar ao cair do pano. 

Foi mais ao cair da folha retorquiu Anastácio, com um sorriso, e fechou a porta. 

Texto do desafio da sessão de 03/02/2026 d'A Velha Escrita, com o tema "As Duas Faces da Dualidade"

  A reunião arrastava-se. Cestinolácia olhava para o mostrador. Quase que conseguia ouvir um tiquetaque no relógio digital, tal era a lent...