ESCREVE UM TEXTO QUE INCLUA ESTAS CINCO FRASES:
— Isto não faz fricção científica!
— Acontece a qualquer um
— Aquela porta era intrigante
— Foi um caso peculiar
— De insólito não tinha nada
A chuva bate com força no vidro. As pingas escorrem, criando uma película que distorce a imagem do exterior. A luz do sol emana através das nuvens grossas, dando um tom de fim de tarde ao meio da manhã. Do lado de fora, reconheço as formas de um carro bege, o verde do jardim e as formas das casas do outro lado da rua. Fecho a cortina translúcida, que cobre a janela como um véu. Não sei porque o faço. Ninguém, no seu completo juízo, andará na rua com aquele tempo, e a água sobre o vidro funciona melhor do que aquele pedaço de tecido para ocultar o que se passa dentro da casa.
Olhei para a divisão. Estava num quarto de dormir. Cama, cómoda, mesa de cabeceira e guarda-fatos eram uma combinação de mobília que não deixavam margem para dúvida. Como chegara ali, não tinha memória. Poderia dizer que era algo insólito, esta falha na minha memória, mas de insólito não tinha nada. Sei que isto não é algo que acontece a qualquer um, mas, a mim, já não era a primeira vez que acontecia. Na vez anterior, que não fora a primeira, dera comigo a deambular num convento. Esse sim foi um caso peculiar. Mas agora não podia perder-me nestes pensamentos.
Decidi explorar a casa em que me encontrava. Já que ali estava, nada mais me restava. Estava curioso de saber se me iria encontrar com alguém. De certeza que não seria com uma freira, como na vez anterior… bem, se assim fosse, seria mesmo insólito. O corredor era longo. Duas paredes que se estendiam até um final oculto pelo obscuridade. O tom verde-alface que as cobria dava-lhes um ar quase florescente. A meio, pelo menos era essa a sensação que dava, estava uma porta. Contrariamente à porta banal do quarto de onde saíra, esta estava coberta de inscrições em runas, ou algo parecido. O tom castanho-terra da madeira contrastava com a parede. Ao meio tinha um enorme batente de ferro na forma da pata de um cavalo. Daí até sentir que aquela porta era intrigante foi um caminho muito curto. Deitei a mão ao puxador para a abrir, mas estava trancada. Recuei um passo. Olhei de novo para ela. Decidi-me por utilizar o batente.
Peguei na pata do cavalo e bati com ela na porta. Em vez de uma pancada, ouvi um relinchar. O batente estava morno e, apesar de ser de ferro, parecia ter uma consistência mais condizente com a carne. Voltei a bater e voltei a ouvir o relinchar. Por um breve momento, tive a sensação de que a pata tentava sacudir a minha mão. E se aquilo fosse mesmo a pata de um cavalo? Não fazia sentido, mas ali nada fazia sentido. Decidi-me por uma abordagem científica. Li algures que, se friccionasse a pata a um cavalo, ele ficava mais dócil. Li ou inventei, não sei. Comecei a esfregar a pata, cada vez com mais força, ao ponto de gritar a frase que o meu professor de física estava sempre a repetir: Isto não é fricção científica!
Com uma força violenta, a pata do cavalo deu-me um coice que me atirou contra a parede oposta. De seguida só me lembro de acordar na cama de um hotel. Foi um sonho, diriam alguns, mas um olho negro e dentes em falta confirmavam que tal não era verdade.
Olhei em volta. O cartão em cima da cómoda dizia-me que estava num hotel. Como chegara ali, não tinha memória. Já contei que um dia dei por mim num convento?