Via as chamas ao longe. A noite
sem luar impregnava-se de laranja. As sombras dançavam em redor daquilo que
antes eram casas. Famílias. Vidas. O grupo parara para recuperar. Já
caminhávamos desde o anoitecer. Dirigíamo-nos para norte. O Sul já estava todo
tomado pelos invasores. As notícias tinham viajado até nós, mas a resistência
em partir aguentara firme até à última hora. Apenas este pequeno grupo saíra da
cidade a tempo. Chamaram-nos de loucos, de covardes. Vozes que agora eram
consumidas pelo fogo.
— Não vale a pena.
Olho para a minha esquerda. Um
homem, dos seus cinquenta e muitos anos, talvez mesmo já na casa dos sessenta,
aproximara-se e agora estava de pé a meu lado. Apesar da pouca luz,
conseguia-lhe ver os traços do rosto. Este era magro, escavado. O rosto de
alguém que já vira o suficiente para não ter tempo de vida para contar tudo.
Apertou os braços musculados contra o peito. A luz difusa dava vida às
cicatrizes que os sulcavam.
Voltei o meu olhar de volta
para fogo.
— Uma vida inteira…
Fita-me.
— Como assim?
Mantenho o olhar no inferno que
se espalha na base da montanha.
— O fogo. Uma vida inteira para
criar algo: casa, trabalho. Providenciar para os filhos, para o futuro.
Ele volta a olhar para o
braseiro que consome o que deixamos para trás.
— Não vale a pena — repetiu. —
Tudo passa. Nada é para sempre.
— Nem tudo passa — retruco. —
Há cicatrizes que vão fundo demais.
— Não nego que isso seja
verdade. — Vira as costas ao fogo e fita-me. — Mas de que cicatrizes falamos?
Das nossas ou das deles?
Afasto os olhos das chamas e
cruzo-os com os dele. Fitamo-nos por um momento, em silêncio. Tento fazer
sentido do que ele me disse, mas não consigo.
— As cicatrizes de tudo perder.
De ver perecer nas chamas aqueles a quem chamei vizinhos, amigos. De ver a
destruição de tudo o que erguemos juntos. Como podes ter dúvidas de quais cicatrizes
falo?
Vejo-o sorrir.
— Essas tuas cicatrizes clamam
vingança, então?
— Claro que clamam! — Sinto o
rosto a aquecer. Devo estar ruborizado, mas, pela cor laranja que nos ilumina,
não deve ser visível.
Ele volta a fitar o fogo.
— Também eles.
Peço-lhe que se explique. Ele
roda ligeiramente o corpo e olha para mim. Percebo que me estava a provocar. A
procurar a minha atenção.
— Achas que sempre vivemos
aqui? — Aponta lá para baixo, para o vale. — Antes de nós viviam eles. Nós é
que somos o invasor. Nós chegamos aqui e fizemos o que vês. Queimamos tudo e
construímos por cima. A vingança que procuras, eles procuraram-na primeiro. Por
isso te digo: tudo passa. Eles agora vão erigir a casa deles, e aqui ficarão,
até ao dia em que voltarmos para cumprir a tua vingança. E o ciclo vai-se
repetir.
Deu meia-volta e regressou ao
grupo, sem mais uma palavra. Voltei o meu olhar para as chamas. Via-as agora
por um novo prisma.
Pouco depois retomamos a
marcha. Nunca mais o voltei a ver. A verdade é que nem sequer o procurei. Mas,
a partir desse dia, regi a minha vida pelas suas palavras: Tudo passa. Nada é
para sempre.