Ergo os olhos para o monitor no
exacto momento em que ele se apaga.
— Maldito cabo que está sempre
a fazer mau contacto.
Levanto-me, estendo-me por cima
da secretária e, com o braço enredado nos cabos que residem por trás do painel
de 27”, empurro o da energia.
Nada.
Arranco-o e volto a ligá-lo.
Nada.
— Maldito! — Praguejo, entre
dentes. — Rai’s parta o cabo! — Grito.
— Mulher. — O meu marido entra
no escritório. — Acho que estamos sem luz.
— E vai demorar? Preciso de
acabar este relatório.
— Como queres que eu saiba? —
Responde-me, com aquele olhar de fastio que o caracteriza.
— Pronto. — Bato com as mãos no
tampo da mesa. — Então, vou aproveitar para ver as séries que tenho em atraso.
— Levanto-me e passo por ele.
— Na televisão? — Questiona-me,
quando já lhe virei as costas.
— Sim, porquê? — retruco, sem
me virar.
— Porque não temos luz…
Paro, olho para o tecto e solto
um grito, enquanto puxo os cabelos. Baixo e rodo a cabeça, encarando-o. Fulmino-o
com o olhar.
— Um livro, então.
As horas passam e a luz não
volta. No patamar do prédio ouço uma comoção. Pouso o livro, levanto-me do sofá
e vou até ao hall de entrada. Espreito para o exterior e vejo os meus vizinhos
da frente a carretar sacos de compras, para casa, à luz de lanternas. Aquilo
intriga-me. Abro a porta.
— Ó Ana, foste às compras sem
luz? — Pergunto.
— Luísa, Luísa! — Ela chama o
meu nome como se eu estivesse em perigo. — A Europa está sem luz. É um ataque, está
confirmado. Vai acabar tudo. Precisamos de estar preparadas para o pior. Temos
de arrecadar o máximo possível antes que tudo acabe.
— Tens a certeza?
— Tenho. Não ouves a rádio? É
um ciberataque a larga escala. Começou! Começou!
— Começou o quê? — Pergunto,
mas ela já não me ouve. Corre para dentro de casa. Ouço as três fechaduras a
rodarem, uma atrás da outra.
— Manel! — Grito para dentro de
casa. — Mexe-te, que vamos ficar presos em casa sem nada para comer.
O trânsito é um inferno. Toda a
gente está na rua. A sinfonia de buzinas é caótica. Berra-se pelos vidros
abertos. Ao fim, conseguimos furar. Deixamos o carro em cima do passeio e
corremos para o supermercado aos tropeções. A rua está escura, iluminada a
intermitências pelos faróis dos carros que passam. Entramos. Carrinhos cheios
de enlatados são empurrados uns contra os outros. As prateleiras estão vazias.
No corredor do arroz, dois homens entroncados digladiam-se ao estalo e pontapé
por uns sacos de arroz. Avançamos. Esbarramos num carrinho cheio de sacos de
pão-de-forma. O meu marido espanta-se com a quantidade, mas o homem esguio que
empurra o carrinho receia que lhe roubem o que ainda não é dele. Olha para o
meu marido e rosna, mostrando os dentes. Parece o pastor alemão do meu vizinho,
quando era criança, que me pregava sempre um valente susto quando passava em
frente ao portão da casa dele.
Entramos no corredor dos
cereais. As prateleiras estão vazias ou com sacos arrebentados. Vejo o meu
marido a correr até ao fundo. Pouco depois desfila para mim, triunfante. Ergue
os dois braços e ostenta uma caixa de Cerelac intacta entre as mãos.
— Habemos papa! — Ouço-o
gritar, segundos antes de um homem encorpado aparecer por trás dele, em
corrida, e o arremessar contra as prateleiras com uma placagem ao bom estilo da
NFL.
Felizmente, o hospital tinha
gerador…