‘Irme! — Gritou o Furriel. O pelotão alinhava e colocava-se em sentido. Ninguém movia um músculo. Nem o frio cortante, que anunciava neve, ou o vento que o fazia raspar no rosto dos soldados, como microlâminas de aço cirúrgico a cortar a superfície da pele, os retirava do transe provocado pela autoridade do graduado.
O silêncio tombava pesado, apenas rasgado pelo assobiar do vento e o chapinhar das botas do furriel na lama. Em passo lento, compassado, passava em frente ao pelotão, ou o que restava dele. A trincheira apertada obrigava os homens a manterem-se hirtos, arma junto ao corpo, olhos na parede de terra à sua frente. Para lá dela, o inimigo. Para trás, os senhores da guerra. Oficiais de alta patente que esperavam resultados. Qual o lado pior, ninguém sabia.
A alvorada aproximava-se. O dia nascia e, para muitos, seria o último. Todos os dias, desde que ali haviam chegado, tinham o potencial de ser o último. Com sorte, seria apenas mais um.
Que sentido fazia estarem ali? Que sentido fazia tudo aquilo? Nas mentes dos soldados não havia espaço para aquelas perguntas. Sentido era uma posição militar, não a essência da existência. Isso ficara em casa, com aqueles que os viram partir. Aqueles que aguardavam o seu regresso, ou um regresso. Alguma coisa. Tudo era melhor do que o nada.
Mantiveram-se em sentido. A tensão acumulava. Fardas velhas e sujas, dos que ainda se aguentavam, misturavam-se com as fardas novas dos que haviam chegado para substituir os que já não se levantavam. Armas prontas. Dentes cerrados. Respiração entrecortada. A hora aproximava-se.
O furriel ergueu a mão. Os homens prepararam-se. O assobio surgiu. A multidão avançou. Galgam o muro de terra e correm pela lama e pelos buracos. A chuva é vertical e a água está transformada em chumbo. A terra explode e despedaça corpos. O ar inunda-se de gritos. A fúria de quem avança, a dor que quem ainda vive, o desespero de quem não quer continuar.
Terra e sangue formam a lama em que as botas derrapam. O cheiro a pólvora e morte satura o ar.
Um a um, os homens vão tombando. Corpos presos no arame farpado, dentro de crateras, espalhados em pedaços pelo chão. O ceifeiro não tem mãos a medir para o serviço.
O assalto termina. O fumo assenta. Ninguém resta.
Regressam à trincheira. Mais um ataque repelido. Quantos mais seriam capazes de aguentar? Recolhem mortos e feridos. Tudo se mantém igual. Apenas aumenta o número de corpos espalhados pela “terra de ninguém”.
Os soldados colocam-se em sentido. Que sentido fazia aquilo? A pergunta esfumava-se com o tempo.
O único que fazia sentido ali era sobreviver.
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